terça-feira, 19 de julho de 2016

A Morte e o Gato quase morto...


Saiu para seu passeio noturno com seu cachorro como sempre fazia. Para seu cachorro talvez fosse o ponto máximo do dia, mas não para ele.
Estava bem frio e a escuridão era levemente aplacada pelas luzes esmaecidas dos postes. Não havia mais ninguém por ali, a não ser os gatos.
Em sua rua, naquele quarteirão existe uma comunidade de gatos sem dono. Talvez mais de dez, clandestinos, vagabundos e sempre pedintes.

Todas as noites que ele sai com seu cachorro, lá estão eles brincando, correndo pra lá e pra cá, caçando, buscando por alguma comida. 
Quando veem seu cachorro, é um evento especial, pois eles ficam curiosos e estimulados a segui-lo. Principalmente os mais jovens. Eles sempre ficam à distancia! 
Como seu cachorro é cego, não há problemas de atritos inter-raciais e nenhuma altercação.

Nesta noite em especial, começou seu passeio na sua rota normal e lá estavam os gatos como sempre, reunidos ou correndo e brincando.
Só que desta vez havia algo diferente. Parecia que um deles estava deitado no chão com alguns deles à volta, próximos, mas nem tanto.
Conforme foi se aproximando, os gatos foram se afastando a uma distância segura e ele percebeu a realidade em cheio. Um deles, um amarelo conhecido, um dos adultos estava estendido lateralmente na rua, quieto e com sua urina escorrendo ao seu lado.
Não se mexia, não fazia nenhum ruido, mas não estava morto ainda. Estava nos estertores. Parecia não haver mais o que fazer.
A noite era muito fria e já era muito tarde. Mesmo assim, ele começou a pensar sobre o que poderia fazer para aliviar o sofrimento do gatinho ou mesmo para tentar salvá-lo.

Pensou em levá-lo a um veterinário, mas a essa hora seria difícil achar um aberto. Pensou em tirá-lo da rua e colocá-lo mais próximo ao meio fio, para deixá-lo mais protegido dos carros. Mas lhe pareceu uma ideia absurda, ele está morrendo afinal. Por que fazer algo, afinal de contas!?

Abaixou-se então, e tocou a nuca do gato, começando a afaga-lo suavemente. Seu pelo era macio e ele ainda estava quente. Não sabia bem o que estava fazendo além de procurar confortá-lo. O gato respondeu com uma levíssima movimentação e um gemido muito baixo e longínquo.

Alguns gatos ficaram próximos dele, observando-o, como se ponderando sobre suas intenções ou monitorando suas ações.

Aquilo lhe deu uma ideia, vou tentar confortá-lo, pensou. Então, levou seu cachorro de volta para casa, coisa que não foi tão bem recebida por seu companheiro canino. Mas uma bronca para colocar na conta dos seus inimigos felinos.
No caminho para casa, percebeu que alguns gatos o acompanharam e o aguardaram, meio escondidos nas sombras, sorrateiros como se ninguém pudesse vê-los.

Em casa, colocou seu cão para dormir em sua cama quentinho (que privilégio nesta noite) e foi pegar alguns apetrechos que julgou importantes para sua missão.
Ao sair para a noite novamente, lá estavam alguns deles esperando e observando atentamente seus movimentos. 
Ele carregava consigo uma caixa de papelão e duas tolhas de banho. Era um ser humano em ação de conforto e quiçá salvamento às 11 horas de uma noite escura e bem fria.

Quando chegou ao gato estatelado (e os outros juntos...), percebeu que ele jazia no mesmo lugar e do mesmo jeito. Então fez o que se propôs.
Abaixou-se com uma toalha grande e cobriu o gato enfermo (ainda levemente quente) de forma a poder pega-lo, abraçando suas costinhas magras com ela. Fez toda a manobra com muito cuidado, com delicadeza e leveza, procurando poupa-lo de mais sofrimento. 
Mas não foi o suficiente, pois o gato resmungou um pouco, bem baixinho mas reconhecidamente um resmungo de dor.
De qualquer forma, pegou-o enrolado, ergueu-o e o levou até a caixa, onde o acomodou suavemente. O gato era bem leve para ele, mas mesmo assim a manobra toda o deixou um pouco cansado. O gato não se mexeu e ele então o cobriu com a outra toalha (e os outros gatos observando...), acomodando-o da melhor maneira que pode.
Então pensou em levar a caixa para um lugar mais protegido e conhecido da comunidade dos gatos, esperando que na manhã seguinte ele pudesse ter melhorado e até se salvado.

Foi o que fez em seguida. Levantou a caixa com um certo esforço e cuidado, ajeitou-a nos braços e começou a caminhar na direção do local escolhido por eles como seu albergue noturno (uma casa abandonada). Naturalmente foi seguido de perto pelo um séquito felino, agora um pouco maior.
Não foi tão fácil escolher um lugar que julgasse ser o melhor possível para deixá-lo durante a noite, talvez sua última, mas por fim decidiu-se por um localizado embaixo de um carro velho (pode chover à noite, né!).

Pronto, estava feito, a sorte do gatinho estava agora nas mãos do mistério e da realidade física inexorável.
Ficou ali olhando para a caixa durante um tempo (e os gatos também...) e pensando sobre a situação como um todo.

A morte é natural, faz parte do ciclo da vida. Nós a aceitamos filosófica e psicologicamente. Afinal somos (alguns de nós...) adultos, maduros. Existem muitos livros e palestras a respeito, escritos por pessoas ligadas à filosofia, às religiões e ao espiritualismo. Parece que nos preparamos para, aceitando-a, recebe-la naturalmente, quase que de braços abertos.
Alguns dizem, vamos para os braços de Deus, outros falam que seremos recebidos pelos nossos entes queridos. Outros falam nas maravilhas do Paraíso e da vida eterna. São tantas as maravilhas que nos esperam do outro lado que parece ser muito fácil ir quando for nossa hora de atravessar o Rubycon.

No entanto, quando a vemos muito perto de nós, a perspectiva muda. Quando vemos alguém (qualquer ser vivo!?) morrendo, queremos salvá-lo, talvez livrá-lo dela. Queremos confortá-lo, livrá-lo do sofrimento e mante-lo por aqui.
Por quê?!
Se a morte é natural, se faz parte do ciclo da vida, se é uma porta para um mundo melhor, mais justo, mais inocente e cheio de amor do que esse em que vivemos, então pra que tentar evitá-la com tanto esforço e dedicação, de forma às vezes tão desesperada!? 

Claro, não chegou a nenhuma conclusão. Após alguns minutos parado (para o espanto dos gatos...) naquele frio, deu-se por satisfeito, indo embora para casa dormir em seu quarto quentinho. Ao começar a caminhar para ir, deu uma última olhada para trás e ainda conseguiu observar que os gatos que o observavam, agora se juntavam ao lado da caixa, como se com um propósito quase humano.
Pensou, será que vão fazer vigília para protege-lo, para despedir-se dele ou apenas vão pegar a caixa para si mesmos!?

Dormiu e acordou bem, distraído pelos sonhos e curtindo a sensação de preguiça que uma cama quentinha oferece. Levou alguns segundos para se lembrar do gato.
Ao faze-lo, uma curiosidade crescente o foi atingindo. Cada vez mais foi ficando com vontade para saber o que tinha acontecido com o gato que procurou ajudar. 
Era uma manhã muito fria também (10 graus) e levou algum tempo para se decidir sair para a vida. Fez alguns exercícios de alongamento em sua cama ainda (como sempre fazia), levantou-se e começou a arrumar sua cama (como sempre fazia). 
Ligou seu Laptop e logo colocou um som, um som eletrônico, ambiente e climático para começar bem o dia. Era o Hammock em sua excepcional "The Lonely Now"

Após algum tempo, começou a se vestir para ir ao banheiro se lavar e comer alguma coisa antes de ver o gato. Mas começou a sentir uma certa ansiedade para vê-lo logo, para saber o que tinha acontecido. Então começou a se apressar um pouco e a pular algumas etapas que sempre fez da mesma maneira.

Após alguns instantes (esses momentos podem ser bem longos, embora curtíssimos..), começou a perceber um certo incômodo mesmo, algo físico. O que era aquilo!? Será que estava tendo alguma premonição (ele que era tão racional)!? Será que havia algo a ver lá fora tão urgente que não podia esperar mais nada!?
Esse estado de urgência prosseguiu por mais alguns longos segundos...
Então, como em várias manhãs frias e com várias pessoas antes dele, algo aconteceu de forma marcante e tão incisiva como ele jamais havia experimentado. Foi algo inteiramente novo e que o pegou totalmente de surpresa, sem poder de reação (não que fosse adiantar...). 

Foi um sentimento tão profundo e intenso, que misturou o lado físico e o lado emocional e que o levou a cambalear e a perder o equilíbrio. O que era aquilo que estava sentindo de forma tão profunda!?

Jamais havia sentido algo assim...

Não aguentou..., e caiu como era de se esperar! Estava atônito, estupefato e no chão. Tudo isso por causa de um gato!???

No chão ele ficou um bom tempo...até perceber, de alguma forma que aquilo que o acometia de forma tão surpreendente e contundente, havia sido sua própria morte.
Ele havia partido, assim sem mais nem menos. Mas...

Será que encontraria o gato..., foi seu último pensamento!


2 comentários:

Henrique Souza disse...

Nossa! Bem escrito! Mas que triste!

Abraços felinos!

Pedro Macedo disse...

Sim Henrique, a tristeza, abraços!!