terça-feira, 26 de julho de 2016

Situações extremas



Em situações extremas, medidas extremas, diz a citação popular. 

Sim, mas como saber quais são as situações e as medidas extremas é uma coisa a ser refletida com cuidado.
Ou seja, quando nada mais há que ser feito, quando já não há mais esperanças, quando o padre ou o médico mandam de volta para casa, se desresponsabilizando, enfim situações finais e desesperadas, quando a perda ou a morte é iminente, só nos resta o convívio com os amigos ou a família.

E o que pode ser feito nessas horas limites!?
Não há mais lugar para palavras sábias, nem para ervas milagrosas, ou rezas poderosas. 
Não há mais caminhos alternativos, nem medicinas ancestrais. Nesses momentos, onde a dor, o sofrimento e a finitude da vida convivem conosco no nosso mais íntimo, nada mais resolve além do consolo carinhoso, do ombro amigo, do ouvido aberto e do amor incondicional!
Não há mais necessidade de dizer a frase final de auto ajuda ou, muito menos buscar algo para se auto-promover ou se auto-satisfazer.

Agora a hora é totalmente do outro, aquele que se despede da vida e ele não quer mais escutar coisinhas mirabolantes ou exercícios de uma fé desgarrada de sua realidade. Tudo já foi feito e já passou, a esperança, que é a última que morre, já morreu. 
Somente a pessoa que está com a dor é capaz de dizer o que está sentindo.
Agora é o momento de escutar e procurar a paz interior entre o que restou de fundamental.

Nessas situações, o ser humano se aproxima bastante da sua essência fundamental mundana, seja ela mais ou menos bem resolvida. 
Percorre sua jarda final com negação, medo, desespero, ou raiva e desdem. 
Ou pode seguir sua trilha final com coragem, consciência, amor no coração e aceitação. É possível imaginar que este cruzará o túnel com mais equilíbrio e paz interior.

Sim, mas é possível isso nestas situações!? Quem vai saber como vai reagir numa situação extrema!? Isso pode ser treinado ou aprendido!?

De alguma forma, pode-se dizer que o que a pessoa está enfrentando agora é o que ela sempre esteve, ou seja sua realidade, o seu trabalho, o seu processo e a noção clara da finitude de todas as coisas, das alegrias e das tristezas.
Assim, parece que se uma pessoa está acostumada a encarar a sua realidade sempre pela frente, com coragem e consciência sem se deixar envolver por descaminhos imaginosos ou subterfúgios que buscam algo inefável ou esperançoso, esta enfim pode estar mais bem "preparada" para o que vier a acontecer em seu caminho, pois vai fazer o que sempre fez. 
O que tem que ser feito para manter a dignidade, o amor e o respeito na vida.

Por outro lado, se a pessoa se acostumou a levar sua vida na base do "alguém que cuida de mim", colocando seu destino nas mãos do imaginado, na adoração do ídolo ou das rezas e dos pedidos ao invisível, das ervas ou dos mantras milagrosos, esta tenderá sempre a pedir ajuda a algo ou alguém para que a tire daquele sofrimento ou daquela situação, porque ela própria não sabe mais como fazer sozinha.

E é claro que a comida não vai dar para todos, que nada é 100% garantido, que na hora do pênalti, ou o goleiro ou aquele que chuta vai ficar feliz, nunca ambos. Não há milagres apenas para alguns, senão seria como roubar no jogo.
Então há apenas a realidade e o fluxo natural das coisas.

Assim, podemos agir do jeito que quisermos, colocar nossa fé ou orarmos para o ídolo que desejarmos, realizar aquele ritual ancestral milhares de vezes, da maneira como nos ensinaram, mas não podemos jamais perder a força da nossa individualidade, nossa consciência da realidade, nem a coragem amorosa de a enfrentar. 
Porque na hora de dar aquele salto perigoso, aquele que nos leva de um nível a outro desconhecido, aquele necessário para a transformação ou aprendizado, quem vai correr de olhos vendados para o abismo, será sempre apenas nós mesmos.

E quais são as situações extremas, senão qualquer momento na vida, em que tudo pode acontecer, tudo está aberto à ação e nada é previsível em termos de continuidade!!?



terça-feira, 19 de julho de 2016

A Morte e o Gato quase morto...


Saiu para seu passeio noturno com seu cachorro como sempre fazia. Para seu cachorro talvez fosse o ponto máximo do dia, mas não para ele.
Estava bem frio e a escuridão era levemente aplacada pelas luzes esmaecidas dos postes. Não havia mais ninguém por ali, a não ser os gatos.
Em sua rua, naquele quarteirão existe uma comunidade de gatos sem dono. Talvez mais de dez, clandestinos, vagabundos e sempre pedintes.

Todas as noites que ele sai com seu cachorro, lá estão eles brincando, correndo pra lá e pra cá, caçando, buscando por alguma comida. 
Quando veem seu cachorro, é um evento especial, pois eles ficam curiosos e estimulados a segui-lo. Principalmente os mais jovens. Eles sempre ficam à distancia! 
Como seu cachorro é cego, não há problemas de atritos inter-raciais e nenhuma altercação.

Nesta noite em especial, começou seu passeio na sua rota normal e lá estavam os gatos como sempre, reunidos ou correndo e brincando.
Só que desta vez havia algo diferente. Parecia que um deles estava deitado no chão com alguns deles à volta, próximos, mas nem tanto.
Conforme foi se aproximando, os gatos foram se afastando a uma distância segura e ele percebeu a realidade em cheio. Um deles, um amarelo conhecido, um dos adultos estava estendido lateralmente na rua, quieto e com sua urina escorrendo ao seu lado.
Não se mexia, não fazia nenhum ruido, mas não estava morto ainda. Estava nos estertores. Parecia não haver mais o que fazer.
A noite era muito fria e já era muito tarde. Mesmo assim, ele começou a pensar sobre o que poderia fazer para aliviar o sofrimento do gatinho ou mesmo para tentar salvá-lo.

Pensou em levá-lo a um veterinário, mas a essa hora seria difícil achar um aberto. Pensou em tirá-lo da rua e colocá-lo mais próximo ao meio fio, para deixá-lo mais protegido dos carros. Mas lhe pareceu uma ideia absurda, ele está morrendo afinal. Por que fazer algo, afinal de contas!?

Abaixou-se então, e tocou a nuca do gato, começando a afaga-lo suavemente. Seu pelo era macio e ele ainda estava quente. Não sabia bem o que estava fazendo além de procurar confortá-lo. O gato respondeu com uma levíssima movimentação e um gemido muito baixo e longínquo.

Alguns gatos ficaram próximos dele, observando-o, como se ponderando sobre suas intenções ou monitorando suas ações.

Aquilo lhe deu uma ideia, vou tentar confortá-lo, pensou. Então, levou seu cachorro de volta para casa, coisa que não foi tão bem recebida por seu companheiro canino. Mas uma bronca para colocar na conta dos seus inimigos felinos.
No caminho para casa, percebeu que alguns gatos o acompanharam e o aguardaram, meio escondidos nas sombras, sorrateiros como se ninguém pudesse vê-los.

Em casa, colocou seu cão para dormir em sua cama quentinho (que privilégio nesta noite) e foi pegar alguns apetrechos que julgou importantes para sua missão.
Ao sair para a noite novamente, lá estavam alguns deles esperando e observando atentamente seus movimentos. 
Ele carregava consigo uma caixa de papelão e duas tolhas de banho. Era um ser humano em ação de conforto e quiçá salvamento às 11 horas de uma noite escura e bem fria.

Quando chegou ao gato estatelado (e os outros juntos...), percebeu que ele jazia no mesmo lugar e do mesmo jeito. Então fez o que se propôs.
Abaixou-se com uma toalha grande e cobriu o gato enfermo (ainda levemente quente) de forma a poder pega-lo, abraçando suas costinhas magras com ela. Fez toda a manobra com muito cuidado, com delicadeza e leveza, procurando poupa-lo de mais sofrimento. 
Mas não foi o suficiente, pois o gato resmungou um pouco, bem baixinho mas reconhecidamente um resmungo de dor.
De qualquer forma, pegou-o enrolado, ergueu-o e o levou até a caixa, onde o acomodou suavemente. O gato era bem leve para ele, mas mesmo assim a manobra toda o deixou um pouco cansado. O gato não se mexeu e ele então o cobriu com a outra toalha (e os outros gatos observando...), acomodando-o da melhor maneira que pode.
Então pensou em levar a caixa para um lugar mais protegido e conhecido da comunidade dos gatos, esperando que na manhã seguinte ele pudesse ter melhorado e até se salvado.

Foi o que fez em seguida. Levantou a caixa com um certo esforço e cuidado, ajeitou-a nos braços e começou a caminhar na direção do local escolhido por eles como seu albergue noturno (uma casa abandonada). Naturalmente foi seguido de perto pelo um séquito felino, agora um pouco maior.
Não foi tão fácil escolher um lugar que julgasse ser o melhor possível para deixá-lo durante a noite, talvez sua última, mas por fim decidiu-se por um localizado embaixo de um carro velho (pode chover à noite, né!).

Pronto, estava feito, a sorte do gatinho estava agora nas mãos do mistério e da realidade física inexorável.
Ficou ali olhando para a caixa durante um tempo (e os gatos também...) e pensando sobre a situação como um todo.

A morte é natural, faz parte do ciclo da vida. Nós a aceitamos filosófica e psicologicamente. Afinal somos (alguns de nós...) adultos, maduros. Existem muitos livros e palestras a respeito, escritos por pessoas ligadas à filosofia, às religiões e ao espiritualismo. Parece que nos preparamos para, aceitando-a, recebe-la naturalmente, quase que de braços abertos.
Alguns dizem, vamos para os braços de Deus, outros falam que seremos recebidos pelos nossos entes queridos. Outros falam nas maravilhas do Paraíso e da vida eterna. São tantas as maravilhas que nos esperam do outro lado que parece ser muito fácil ir quando for nossa hora de atravessar o Rubycon.

No entanto, quando a vemos muito perto de nós, a perspectiva muda. Quando vemos alguém (qualquer ser vivo!?) morrendo, queremos salvá-lo, talvez livrá-lo dela. Queremos confortá-lo, livrá-lo do sofrimento e mante-lo por aqui.
Por quê?!
Se a morte é natural, se faz parte do ciclo da vida, se é uma porta para um mundo melhor, mais justo, mais inocente e cheio de amor do que esse em que vivemos, então pra que tentar evitá-la com tanto esforço e dedicação, de forma às vezes tão desesperada!? 

Claro, não chegou a nenhuma conclusão. Após alguns minutos parado (para o espanto dos gatos...) naquele frio, deu-se por satisfeito, indo embora para casa dormir em seu quarto quentinho. Ao começar a caminhar para ir, deu uma última olhada para trás e ainda conseguiu observar que os gatos que o observavam, agora se juntavam ao lado da caixa, como se com um propósito quase humano.
Pensou, será que vão fazer vigília para protege-lo, para despedir-se dele ou apenas vão pegar a caixa para si mesmos!?

Dormiu e acordou bem, distraído pelos sonhos e curtindo a sensação de preguiça que uma cama quentinha oferece. Levou alguns segundos para se lembrar do gato.
Ao faze-lo, uma curiosidade crescente o foi atingindo. Cada vez mais foi ficando com vontade para saber o que tinha acontecido com o gato que procurou ajudar. 
Era uma manhã muito fria também (10 graus) e levou algum tempo para se decidir sair para a vida. Fez alguns exercícios de alongamento em sua cama ainda (como sempre fazia), levantou-se e começou a arrumar sua cama (como sempre fazia). 
Ligou seu Laptop e logo colocou um som, um som eletrônico, ambiente e climático para começar bem o dia. Era o Hammock em sua excepcional "The Lonely Now"

Após algum tempo, começou a se vestir para ir ao banheiro se lavar e comer alguma coisa antes de ver o gato. Mas começou a sentir uma certa ansiedade para vê-lo logo, para saber o que tinha acontecido. Então começou a se apressar um pouco e a pular algumas etapas que sempre fez da mesma maneira.

Após alguns instantes (esses momentos podem ser bem longos, embora curtíssimos..), começou a perceber um certo incômodo mesmo, algo físico. O que era aquilo!? Será que estava tendo alguma premonição (ele que era tão racional)!? Será que havia algo a ver lá fora tão urgente que não podia esperar mais nada!?
Esse estado de urgência prosseguiu por mais alguns longos segundos...
Então, como em várias manhãs frias e com várias pessoas antes dele, algo aconteceu de forma marcante e tão incisiva como ele jamais havia experimentado. Foi algo inteiramente novo e que o pegou totalmente de surpresa, sem poder de reação (não que fosse adiantar...). 

Foi um sentimento tão profundo e intenso, que misturou o lado físico e o lado emocional e que o levou a cambalear e a perder o equilíbrio. O que era aquilo que estava sentindo de forma tão profunda!?

Jamais havia sentido algo assim...

Não aguentou..., e caiu como era de se esperar! Estava atônito, estupefato e no chão. Tudo isso por causa de um gato!???

No chão ele ficou um bom tempo...até perceber, de alguma forma que aquilo que o acometia de forma tão surpreendente e contundente, havia sido sua própria morte.
Ele havia partido, assim sem mais nem menos. Mas...

Será que encontraria o gato..., foi seu último pensamento!


domingo, 21 de dezembro de 2014

Insatisfação ilusória

Olá amiguinhos deste belo planeta e desta bela época na ainda curtíssima história humana.
Próximos das festas, o clima é de reflexão, fraternidade e união. Então, ao som climático dos sensacionais e "very quiet" Hammock e Stars of the Lid, gostaria de mergulhar um pouco nas profundezas das coisas tranquilas, simples e sem importância.

Dizem os entendidos, pelo menos alguns deles (são muitos!!), que o ser humano é intrínseca, completa e inexoravelmente insatisfeito.
Sim amiguinhos, pasmem, somos insatisfeitos, ou seja, nunca estamos plenamente satisfeitos.
Ou talvez seja melhor dizer que nossa insatisfação está muito mais conosco, dentro de nós no dia-a-dia do que a sensação de satisfação.
Dizem, alguns daqueles especialistas, que assim que "pomos os pés neste mundo", que tomamos nossa primeira respiração, assim que, afinal, saímos do útero de nossa santa mãe, nos tornamos este ser plenamente insatisfeito.

Claro, há discordâncias, divergências, diferenças de opinião e até gritos nervosos e raivosos contra esse tipo de hipótese. No entanto, como dizem, contra fatos não há argumentos.
Pelo menos enquanto não entendemos exatamente o significado daqueles fatos. Bom, de fato, isso nunca acontece. Jamais sabemos exatamente alguma ou qualquer coisa. 
Então o que nos resta são os fatos observáveis, nossas reflexões, nosso raciocínio lógico, nossas intuições e, finalmente nossas conclusões ou hipóteses que tentam explicar aquele comportamento natural, aquele evento observado ou experimentado.
E ai está amiguinhos, a não ser em alguns momentos fugazes, em alguns átimos temporais, em alguns vislumbres passageiros pelo canto dos olhos, nós, seres humanos comuns, ordinários, estamos sempre insatisfeitos, buscando nossa "eventual" satisfação num possível e futuro evento já imaginável.

Isso aconteceria, segundo "alguns" de nossos especialistas atuais, devido ao fato de estarmos sempre buscando aquela plenitude de conforto e segurança somente obtida no útero. Para mim faz muito sentido. Também faz muito sentido perceber que aquela plenitude não pode ser resgatada ou realizada novamente. É impossível.

No entanto ficamos buscando-a eternamente. Primeiro nos pais (na mãe principalmente), no lar, no berço, no seio, no carinho, nos amigos, nos relacionamentos amorosos, nas grandes façanhas, nos ideais, no trabalho, na religião, etc.
Nunca será pleno, nunca durará por mais tempo do que gostaríamos. Nunca. Assim que provamos o doce, já outro queremos. Da mesma forma a paixão, o orgasmo, o júbilo, o êxtase.

Tudo passa, tudo é impermanente. Alguns especialistas (esses mais antigos) dizem que a lição da impermanência e da insuficiência das coisas em nos fazer plenamente felizes e satisfeitos é uma das nossas maiores e mais importantes lições.
Que passaremos a vida toda tentando aprendê-la, compreende-la e incorporá-la completamente.

E eles dizem mais amiguinhos. Eles dizem que o segredo, a solução final, "o cair da ficha" está no momento presente, em sua vivencia plena. E que não há nada além disso, nada além da intensidade e da riqueza do momento presente. Vivê-lo plenamente significa sentir-se satisfeito e em paz.
Viver todos os momentos dessa forma, significa estar completamente satisfeito para sempre.

Mas, mais uma vez a grande (ou pequena) sabedoria popular nos diz que "falar é muito mais fácil do que fazer"!!
Então o que fica disso tudo, que é realmente importante e que pode nos levar adiante rumo ao deleite final de nossa jornada.

Bom, obviamente tenho que recorrer aos "nossos universitários e especialistas". Eles dizem coisas como:
Prestem atenção nos sentimentos, nos pensamentos em cada momento, mas não se julguem, nem caiam na ilusão da vítima ou do algoz.
Estejam sempre conscientes e no amor.
Tenham paciência e nenhuma expectativa, nenhuma ansiedade.
Disciplina, persistência e fé no caminho.
Quando perceberem que saíram do "trilho", voltem sem críticas, sem julgamentos e aceitem.
Treinem a Mente e o Coração.

Bom, bom, bom amiguinhos agora que já sabemos o que fazer (segundo Eles), só nos resta refletir na questão, encará-la de frente, e perguntarmo-nos se estamos satisfeitos do jeito que estamos ou não!
Será que queremos fazer alguma coisa para mudar nossa situação atual, nossa condição de vida interior, miserável ou robótica!?
Pensemos a respeito. Estejamos conosco bem lá no fundo, buscando nossa resposta, porque não existe ninguém mais por nós a não ser nós mesmos.

Queridos amigos, paro por aqui por que não sou bobo (pelo menos eu acho!) e sei que o silêncio é o mais importante muitas vezes.
Paz, amor e Luz na Consciência sempre.



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Viver a Vida

Olá amigos deste espaço e desta dimensão temporal. Estamos aqui neste momento por obra de nossa percepção mental e espiritual. Hoje embalados aos sons de Harold Budd & Robin Guthrie, de Hammock e do fabuloso Stars of the Lid.
Sons etéreos, lentos, profundos e melodiosos. Nada mais inspirador para mim.

A Vida nos oferece uma gama muito grande e variada de experiências e possibilidades que podem ser experimentadas. Vive-las ou não parece ser uma escolha nossa, do nosso livre arbítrio.
No entanto, alguns destes eventos vitais parecem nos acontecer quer queiramos, quer não. Parece que são jogadas na nossa cara de forma inevitável e intensa.
Em outras ocasiões temos que ir ao seu encontro, nos esforçar um pouco para vivencia-los. Outros são ainda mais difíceis e fugazes e nosso esforço para experimenta-los deve ser bem maior.

De qualquer forma, a verdade é que sempre experienciamos a vida com a nossa percepção mental. Esta pode ter diferentes dimensões e profundidades. 
Vamos dizer que podemos perceber física, psicológica ou espiritualmente para simplificar as coisas. De um nível mais grosseiro para um nível mais sútil. Parece ser uma aproximação razoável, embora simplificada. De fato as coisas não são nada simples e estamos longe de saber "pouco" a respeito. Imagine "muito".

Em todo caso, tudo depende de nossa percepção, isto é de nossa consciência, de sua amplitude e foco. Na realidade de nossa interpretação da realidade que vivemos.
A herança familiar, a genética, o modo como fomos educados e nosso ambiente cultural, social e emocional na infância têm muito peso no cenário geral, na formação e no "clima" dessa percepção.
Essa influência externa do modo como percebemos a realidade continua ao longo de nossa vida inteira. Todas as nossas escolhas e decisões importantes ou não, nossos pontos de vista, nosso humor diário, tudo o que percebemos e sentimos são permeados por esses fatores genéticos, psicológicos e físicos. Sem falar no espiritual.

Estamos meio que pressionados por todos os lados por conta de forças que têm um enorme poder de persuasão e sedução sobre nós.
Ao mesmo tempo, parece que sempre temos a escolha final, temos o poder de decidir o que quisermos em cada momento vivido. Que temos o controle final.
O fato é que, sem o nosso controle, tendemos a ir ora para um lado ora para o outro. Ou seja, sem a direção da nossa consciência, nos iludimos de um jeito ou de outro.

No exercício do viver, da busca de nossos sonhos, de nossa felicidade, estamos sempre nos esforçando para fazer isso ou aquilo, tentando focar nossa atenção à questão mais importante daquele instante para decidirmos melhor.
Mas parece que quanto mais nos esforçamos mais a coisa nos escapa. Deve haver um ponto certo onde as coisas acontecem "naturalmente". Seria "o fio da navalha", o caminho do meio.
Os grandes mestres insistem em dizer que esse ponto parece acontecer mais vezes com uma percepção mais atenta e amorosa da realidade, do que o oposto.

E isso deve ser um fato. Se rir ou chorar são contagiantes, então o humor diário pode se-lo também. Se temos alguma escolha, algum livre arbítrio, então é preferível escolher o amor, a pureza, o otimismo e o copo cheio.

É uma questão de percepção, portanto deve ser de treino mental, físico e espiritual.
Dizem que devemos perceber a vida da mesma forma como as crianças a percebem. Da mesma forma como percebemos a música. Nos deixando levar pela intensidade do momento, usando a consciência, tendo a percepção direta, sem rotular, sem julgar, sem reagir.
É simples e definitivo, mas é como por o ovo em pé!!

Paro agora ao som de Steve Roach e lhes desejo uma vida plena e feliz. 

domingo, 25 de maio de 2014

Estado Natural

Amigos, imaginem-se numa noite agradável de outono-inverno, ao som celestial do magnífico duo americano chamado Hammock. A partir desse cenário, gostaria de refletir com vocês sobre um tema especial que me veio à percepção aos poucos, de não sei onde!!

Há um estado natural das coisas do mundo. Das coisas materiais e das imateriais.
Das  muito densas, das não tão densas e das mais sutis.
Um estado onde há o mínimo gasto de energia para se estar e onde se experimenta a maior estabilidade possível.
É um estado de repouso, de pouca tensão e, portanto bastante tranquilidade. Ele é conhecido por todas as coisas da Natureza, pelos seres viventes em geral. A água sempre o procura e permanece nele. 
Pela observação de sua Natureza interna e externa, o homem aprendeu a conhecê-lo e, através da Filosofia, da Religião e da Ciência, se expressou sobre ele.
Ele aprendeu que neste estado, tudo se acalma, se revigora, fica mais claro e atemporal. Ele sabe que a partir dele, sua visão das coisas é mais ampla, imparcial e penetrante.

Vamos, então aqui chamá-lo de Centro. Ele é um ótimo lugar para se acalmar, para repousar, recuperar as energias, fazer uma reflexão mais profunda, ver as coisas de uma perspectiva mais ampla e verdadeira.
Mas é também um estado onde pode haver uma transformação interior, uma cura, pode ocorrer "o cair da ficha", o "salto de compreensão"!

Assim, o Centro é um lugar de introspecção e de ação interior. Mas não exterior. É um lugar de potencial de ação exterior, de criatividade.
É a partir dele que nascem as grandes ideias, as obras de arte, as invenções, as Iluminações. Porque é ali onde o Ser pode concentrar sua maior atenção/concentração, sua maior quantidade de energia e potencialidade criativa.

No Centro é onde nos encontramos com a Paz e o Amor. Idealmente, é a partir dele que acontecem as ações exteriores. Sempre que agimos gastamos energia física, psíquica e emocional e obtemos um resultado.
Portanto, sempre que agimos devemos voltar para o Centro para nos restaurarmos e para refletirmos sobre o resultado, entrando em contacto com as vibrações que retornam.
Quanto mais intensa ou profunda for nossa ação exterior, tanto mais importante é o nosso retorno ao nosso Centro.

Pode-se dizer, então que quando agimos exteriormente, nos desequilibramos momentaneamente ao despendermos nossa energia numa só direção. Assim, logo que possível, voltamos para Ele. Caso contrário, a Vida seria um eterno agir sem refletir, um eterno nadar na superfície sem os significados mais profundos, um eterno buscar de satisfações de desejos, a tudo banalizando. Um eterno se esgotar, sem restauração, nem Paz e nem Amor. Uma Vida de Zumbis.

Mas, onde está o Centro? Ele depende de cada situação? De cada momento? Nossa principal pista está em saber que no Centro está o Repouso, a Paz, o Amor e a Atenção plena e desinteressada. É também onde se encontra a Consciência. 
O Centro, necessariamente, está entre os extremos. Às vezes, precisamos ir ao extremo oposto para recuperarmos a noção de nosso Centro.
De qualquer forma, em cada situação pode-se buscar esse estado e obter seus benefícios.
Na doença física, é fácil, busca-se o repouso, o fortalecimento físico, mental e psicológico. Damos tempo para o corpo se recuperar. E o ajudamos muito quando ficamos quietos e o mais tranquilos possível.

Nas aflições mentais é mais difícil encontrá-lo ou até procurá-lo, mas devemos sempre nos lembrar que, fora Dele não há Paz ou Amor.
Às vezes, é preciso um treinamento mental para recuperarmos essa noção e essa busca interior.
A busca do Centro pode ser auxiliada com sua associação a alguns processos naturais, que aqui chamamos âncoras.
Um deles é a respiração. A esta é muito fácil fazer a associação porque ela está intimamente ligada à natureza do nosso estado psíquico-emocional. Quando estamos muito emocionados, agitados portanto, ela terá a mesma natureza. Estará agitada, curta e muito frequente. Quando nos acalmamos, "suavizando" nosso processo mental, a respiração naturalmente também se acalma, desacelera se alongando e se aprofundando.

Assim, pode-se dizer que quando queremos alcançar nosso Centro mentalmente, podemos buscar uma sintonia com nosso ritmo respiratório, buscando suavizá-lo e "ficando com ele" o maior tempo possível.  
Se o perdermos, não haverá nenhuma culpa, nenhum julgamento, apenas uma volta tranquila ao estado anterior.

Enfim, ao exercitarmos a busca periódica e constante de nosso Centro, nossa vida será mais plena, positiva e saudável, pois plena estará do potencial de Consciência, Paz e Amor generosos  que Dele emanam.

Amigos, que nossos momentos sejam plenos e amorosos!!





Que a visão dessa linda Garça Azul nos inspire em nossa busca!

 


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Ritual

No embalo inspirado e místico de Aeoliah, com seu álbum "Majesty", inicio este novo ano (2014) nesta nova-velha vida.

Toda passagem de ano nos faz refletir sobre vários temas importantes. O que fizemos, o que vamos fazer, planejamentos profissionais, de aquisição de bens, resoluções sérias e firmes, etc.
Vou refletir um pouco aqui sobre os rituais e seu valor para mim. 

Como  se sabe, os rituais existem na vida humana desde de seus primórdios e estão ligados a religiões, a culturas e a associações místico-filosóficas, grupos militares, políticos, dentre outras instituições.
Existem rituais de passagem de uma estação do ano para outra, de um período na vida para outro, de apreciação de um ídolo ou deus, de fertilidade, de crescimento, de celebração de vitórias, de lamentação de derrotas, de lamentação de perdas, de júbilo pelo casamento, etc.
Desde que o Homem, pela primeira vez, olhou para o céu noturno estrelado e viu o que todos podemos ver ainda hoje, começou a sentir algo profundo, misterioso, começou a se sentir inserido na imensidão do universo. Mesmo sem entender.
Desde que começou a ver o valor da alimentação, da companhia dos outros e do refúgio seguro em suas vidas, o homem começou a ter necessidade de celebrar e repetir certos comportamentos para reviver as emoções sentidas e passá-los aos outros.

Por que o ser humano é tão conectado assim aos rituais!? Qual é sua força, seu valor?

O mais importante é notar que cada ritual contém e pretende transmitir um significado, um princípio e um mistério envolvidos em sua ideia.
Seu princípio e significados mais mundanos nos fazem pensar, interiorizar e tomar resoluções sérias e firmes e até nos transformar. Mas é o mistério envolvido que pode causar o maior efeito, porque nos cria uma dúvida em nossa compreensão e pode fazer com que nos curvemos e o reverenciemos.
Sim, por que como todo mistério que se preze, ele é inalcançável (por enquanto, pelo menos!) pela intelectualidade, pela racionalidade humanas. E isto nos faz menores, humildes. 
Nós nos curvamos para aquilo que não conhecemos totalmente. O orgulhoso ser humano, que acha que tudo sabe, de repente, se vê nas garras do misterioso.
E o Mistério, o insondável, o inexplicável é maior do que nosso Ego, maior do que nós. Essa é uma ideia muito importante para continuarmos nossa jornada com o devido respeito e consideração pelo que é maior do que nós, pelo misterioso.
Muito importante para nos manter humildes, receptivos, atentos e conectados com os sentimentos e a sacralidade desse mistério.
Há algo Maior, mais importante do que o Ego, simbolizado pelo mistério nos rituais. Sem dúvida que há! Caso contrário, saberíamos por que estamos aqui.

O ritual ainda tem valor e significado para o ser humano enquanto a ideia que representa ou simboliza não estiver banalizada. Ou seja, enquanto o cinismo e a ironia humanas ainda não a tiver corrompido.
A banalização de tudo tira a reverência, o mistério e a profundidade da vida. E ai, achamos que somos maiores do que tudo. Ledo engano sempre.

Por isso, a atenção à intenção, ao seu interior, a disciplina para manter o ritmo da respiração e o silêncio interiores são muito importantes.

Abraços fraternos e paz profunda.

sábado, 10 de agosto de 2013

Ela existia!

14:23hs



Som: Música eletrônica de Steve Moore (Light Echoes). Na prática é como se fosse o Tangerine Dream. Eu gosto. 
Já estamos em agosto. O sol começa a nascer ligeiramente mais cedo e as temperaturas já sobem um pouco. As noites se encurtam e a vida consciente acorda mais cedo.
Os seres viventes deste mundo ao despertarem, começam a perceber novos pensamentos, sentimentos, urgências, esperanças e toda a sorte de imagens e fantasias em suas mentes. Basta existir conscientemente neste mundo para sofrer a influência desses eventos nem tão compreendidos assim.

É minha gente, mas não para Verônica. Para ela não acontecia desse modo. Por quê!? Porque ela ainda não existia nesse mundo. Não tinha este corpo, este cérebro ou esta mente com tudo o que a acompanha. Não ocupava uma parte desse espaço, não respirava nosso ar, não comia nossa comida e não tinha nossas preocupações.
Mas ela existia. Ela tinha certeza disso. Mas, onde ela estava!? Ela estava no nosso antes e no Agora dela.
De fato, ainda nem sabia que era a "possível" Verônica e que teria um pai e uma mãe. Que teria uma vida consciente com amigos, escola, trabalho, esperanças, projetos, realizações, raiva, dores, doença, sofrimento, amores, alegrias, ressentimentos, inveja, medos, certezas, orgulho, dúvidas, entusiasmo, auto-estima, Ego, paciência, confiança, fé e Paz.
Não sabia que poderia ir da miséria à riqueza, da alegria à tristeza, da expectativa à decepção, da desesperança ao amor em questão de minutos ou até mesmo segundos. Não sabia que poderia ter uma experiência espiritual tão transformadora que poderia lhe trazer a Paz e a Sabedoria totais. Não sabia que poderia sentir tanto medo que poderia até se matar.
Enfim, não sabia ainda que seu potencial mental de vida e de morte poderia ser inimaginavelmente grande, que de tão imenso era como se infinito fosse.
Não, ela ainda não sabia. Porque aqui ainda não estava.

Mas, se não estava aqui, onde estaria!? Uma pergunta válida, não é mesmo! Uma dúvida razoável. Onde ela estava, onde nós estamos, e o que ela lá fazia!? E nós!?
Essas perguntam demandam uma explicação, ou pelo menos uma profunda e perene reflexão. Nem que seja para aplacar os ânimos. Ou talvez até para realizar uma (parte) verdade. Ou a Própria, em carne e espírito.

De qualquer forma, lá estava Verônica existindo em algum lugar diferente desse e sendo algo diferente de nós. Sim e de fato, isso é verdade e verdadeiro porque nada existe em um lugar sem ter estado antes em outro (esperando). Pois nada surge do nada. Algo sempre surge (vem) de algum lugar. Ou de algum formato anterior, menos amadurecido.  Nada se perde, tudo se transforma. A quantidade de energia do universo se conserva. É uma lei natural da evolução.

Assim devem funcionar as coisas do Universo, através da evolução, da tentativa e erro, da causa e do efeito, com origem, vida, crescimento, autoajustes, amadurecimento, envelhecimento, decadência e morte neste mundo. E, portanto renascimento no outro.
Estamos então aqui, neste mundo, em nossas vidas buscando evoluir, através das experiências com os outros e conosco mesmos, tentando, errando, se ajustando, amadurecendo, em direção ao outro mundo, para então, conhecer Verônica.

Beijos a todos, paz profunda e atenção plena.